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Padre faz artigo no Jornal Grajaú de Fato relembrando a volta de São Pedro dos Cacetes.


Diz-se que “o passado não volta mais e que o futuro pertence a Deus”, mas em nosso maravilhoso e sofrido Maranhão, tudo é possível, até a volta do passado. É o que mais se fala nestes dias no povoado Remanso: a comparação com os tempos de São Pedro dos Cacetes. Todo mundo nesta região de Grajaú sabe o que significa pronunciar este nome para o povo do Remanso: saudade, sofrimentos, enfrentamentos. Contudo, também os mais saudosos admitem que naquela época a vida do povo era muito sofrida, por causa da distância das cidades de Grajaú e Barra do Corda. Mas, por incrível que parece, várias vezes nestas semanas ouvi repetir esta frase: “Nem na época do São Pedro estávamos deste jeito, estávamos tão lascados”.

Pois é, é isso mesmo e, quem quiser fazer “uma volta ao passado”, é só andar pelas ruas do Remanso; sim, porque elas estão tomadas pela lama que, após uma chuva qualquer, nem carro passa em muitas delas e vários já atolaram. Por incrível que pareça, ontem à noite tive que pedir ao povo da Igreja, que rezasse para que não chova sexta-feira e sábado, porque, se não, domingo, pela primeira vez, não poderemos fazer a tradicional Procissão do Domingo de Ramos; motivo: intransitabilidade das estradas. Mas você já pensou o que significa pedir a um maranhense de rezar para não chover, no decorrer de um inverno que já foi fraco?

Contudo, ninguém pense que no Remanso esteja chovendo mais que no restante da região. Esta  situação lastimável é devida ao descaso ou incompetência, não sei dizer, da nossa Prefeitura Municipal, que, há dois meses, começou uma reforma das estradas. Seja bem claro, a reforma em si é bem-vinda e era necessária, não ocorrendo há vários anos. O que é trágico ou ridículo, não saberia dizer, é a modalidade com que ela está sendo realizada.

Em primeiro lugar o momento escolhido, no pique das chuvas, não sei se é realmente o tempo mais oportuno para isso. Além disso, a direção dos trabalhos deve estar nas mãos de “algum cargo de confiança”, totalmente incompetente em matéria. Pelo contrário, me digam, que sentido tem descarregar carradas e carradas de barro no meio das ruas e deixá-las amontoadas por semanas? É claro que, a cada temporal, a água vai empoçando e criando lama. Então vamos espalhar o barro; e ai sim, que vem a tragédia: o barro foi espalhado, mas não presta para fazer estradas; de fato é aquele barro argiloso, que faz lama no inverno e poeira no verão. A esta “altura do campeonato” o povo, finalmente, começa a chiar, coloca foto nas redes sociais e o mal estar vai crescendo.

“Mas este povo do Remanso é muito maldoso. Nós tiramos os bandidos daqui e ainda reclamam por um pouco de lama. Mas é claro que iremos colocar uma piçarra em cima dela. Quanto ao asfalto, nem se fala, porque o Remanso não paga IPTU”. Assim foi dito pelos cabos eleitorais da Prefeitura. De fato foi colocada uma piçarra, aqui e acolá; mas, sem dar nenhuma explicação, da noite para o dia, todas as máquinas foram retiradas e foram levadas embora, sem terminar o serviço; assim, se você é romântico e gosta das coisas do passado, nos visite no Remanso e, de repente, saberá como era a vida no São Pedro dos Cacetes.

Claramente a brincadeira do São Pedro é uma forma irônica de tratar um assunto muito trágico, que requereria uma linguagem muito mais dura e desagradável. A verdadeira pergunta é: para onde vai o nosso Município? A sensação difusa entre o povo normal, não “os amigos dos amigos”, que têm canais e tratamentos especiais, é que estamos num barco sem timoneiro. Por qualquer canto você se vira encontra obras inacabadas e serviços suspensos sem nenhuma explicação.

Não vamos falar do poço com o reservatório, que deveria ter sido entregue ao povo de Alto Brasil no mês de fevereiro e, por enquanto, só tem uns buracos no chão sem outras explicações. Já falei da iluminação pública, cujo dinheiro ninguém sabe para onde vai, sendo que a manutenção dos pontos de iluminação é feita de forma totalmente avulsa e arbitrária, deixando inteiras ruas na escuridão, a começar da Igreja Matriz de Alto Brasil. E só para concluir esta lista, muito sumária e parcial, um dia desses, voltando de São Luis de ônibus, pedi ao motorista que parasse na Av. Getúlio Vargas, em frente à lanchonete, onde costumam parar os ônibus, porque devia descarregar duas caixas de catecismos; mas o homem respondeu: “Não senhor, não vou entrar, porque aquela rua é só buraco; você tem que descer na BR”; ou seja, em Alto Brasil, também, quem quiser entrar no povoado, deve fazer “o batismo da água e da lama”, porque o asfalto já se foi.

“Mas Padre, você é maldoso! Será que não estamos mesmo fazendo nada?”; realmente tem que reconhecer que a nossa Prefeitura faz alguns trabalhos. Por exemplo, a estrada que conduz às minas do gesso foi muito bem arrumada, até asfaltada! Realmente para quem financiou a campanha de 2012 tem que ser devolvido o favor.

Mas além destas falhas, entre aspas normais no nosso Brasil, o sofrimento maior da nossa população e da sociedade civil organizada é não ter ninguém com quem falar, para resolver estes problemas. Infelizmente nos gabinetes da Prefeitura só se encontram pessoas muito educadas e gentis, que não resolvem nada e sempre respondem com o mesmo refrão: “O Prefeito ou o Secretário, que seja, não se encontra. Está viajando em busca de melhorias para o nosso Município”. Mas se essas são as melhorias, nós respondemos: “Muito obrigado, não queremos. Preferimos que vocês fiquem na cidade e façam funcionar a Prefeitura a serviço da população, começando dos mais pobres e necessitados”.

*Padre Marcos é italiano, Vigário Paroquial do Alto Brasil, Coordenador Diocesano da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e colunista do Jornal Grajaú de Fato


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